CONDOMÍNIO DAS ORQUÍDEAS

Com certeza Juscelino Kubitschek de Oliveira era um homem especial, que ia muito além do estadista. Ao por em prática, o ato corajoso de construir uma cidade, do nada, em uma região pouco desenvolvida e distante do eixo industrial, econômico, intelectual do país, Juscelino teve a inteligência de cercar-se de grandes artistas e geniais profissionais. Na música, Tom e Vinicius compuseram a Sinfonia Alvorada; na arquitetura, Oscar Niemeyer; no urbanismo, Lúcio Costa; nas artes plásticas, Athos Bulcão e no paisagismo, Burle Marx. Deste último, ficou impregnada na cidade a singeleza inusitada da composição do concreto e do verde. Nas quadras octogonais, isto ficou registrado nas belas árvores que foram adornadas pela presença de maravilhosas orquídeas, o que dá um charme todo especial àqueles núcleos residenciais.

Nas quadras 1,7 e 8 alguns moradores plantam, cuidam e até as vigiam como sentinelas. São verdadeiros guardiões dos orquidários. As orquidáceas das octogonais são de várias espécies, cores e tamanhos. Elas têm o dom de encantar pela beleza e são do tipo chamado epífitas (plantas que vivem naturalmente sobre os galhos e troncos de outras plantas). Normalmente têm nomes em latim ou em grego para que todos, em qualquer parte, possam reconhecer a mesma planta. Elas ficaram tão populares que são vendidas até em supermercado, mas a elegância de vê-las nas árvores dessas quadras traduz a paixão que exerce sobre as pessoas.

O cuidado

Moradora do bloco A da quadra 7 da Octogonal, Anita Flores é uma das cuidadoras das plantas, principalmente das orquídeas, na área verde do seu prédio. Vinda de Araruama na região dos Lagos do Rio de Janeiro, Anita está em Brasília desde a inauguração. Como sempre gostou de plantas, ela participa de cursos na Central Flores e nas exposições do Teatro Nacional. Cursos que lhe auxiliam na maneira de cultivar as orquídeas. Mas, segundo ela, gosta mesmo é de cuidar ao seu jeito, de acordo com as estações, com mais ou menos chuva. Todo esse carinho e dedicação são recompensados ao vê-las bonitas e embelezando a quadra. Perguntada sobre o desaparecimento de algumas rosas e orquídeas, do local onde mora, Anita lembra que antes de colocarem as câmaras, algumas flores eram, vamos dizer “deslocadas” do ambiente. Mas hoje, com as câmaras por todos os lados, elas estão lá firmes.

A paixão

Cearense de Crateús, Francisco Alves Neto, chegou a Brasília em 1965.  Em 1994, em uma exposição com várias espécies de plantas, que se apaixonou pela diversidade, o perfume e a beleza das orquídeas.

Hoje, um experto no assunto, foi entrevistado pela equipe da Revista.

RCS: O Cerrado tem alguns tipos específicos de orquídeas. Como se chamam?

O Cerrado foi contemplado pela natureza com vários gêneros de orquídeas, como por exemplo, Cattleyas, Oncidiuns, Catassetuns, Cyrtopodiuns, Cattleyas walkerianas, Cattleya nobilior, etc. Destaco entre estas a Cattleya walkeriana, considerada Rainha do Cerrado, com a concordância dos mais exigentes orquidófilos. Mereceu estudo especial em livro de autoria de Lou Menezes (Menezes, 2011), pesquisadora do Ibama.

RCS: Há uma maneira especial de cuidá-las?

Como regar as orquídeas é sem dúvida uma das perguntas mais frequentes feitas pelos iniciantes no cultivo. Nesse sentido sugiro observar como funciona o clima da sua região geográfica. No caso de Brasília, Planalto Central, consideramos a existência de duas estações ao ano, uma seca e outra molhada. Assim, devemos regar as orquídeas com mais frequência no período de seca, três vezes ou até mais por semana, dependendo das taxas de umidade relativa do ar, que costumam baixar muito nessa época, e, no período chuvoso regar com menos frequência, uma ou duas vezes por semana, o oposto do que ocorre na estação seca. As orquídeas mais cultivadas são aquelas, que na natureza, vivem grudadas em troncos e galhos de árvores. Nesse sentido, quando cultivamos em vasos, devemos escolher um local bem iluminado e ventilado, fatores essenciais para ela. A luminosidade deve ser indireta, ou seja, sem luz solar direta, a não ser que seja aquela das primeiras horas da manhã ou do final da tarde. É importante, ainda, observar que a rega das orquídeas varia conforme o seu suporte ou conforme o tipo de substrato* utilizado para o plantio (uns secam mais rápido e outros mais lentamente). Elas não devem manter-se encharcadas o tempo todo para evitar o apodrecimento das raízes, mas também, não devem ficar com o substrato totalmente seco por mais de dois dias, para evitar que desidratem. O clima temperado de Brasília permite o cultivo de muitos gêneros e espécies de orquídeas. A adubação faz parte do contexto do cultivo e não deve ser desprezada, podendo ser química e/ou orgânica.

RCS: Como qualificar um presente com orquídeas?

 É sem dúvida um presente especial. É difícil imaginar um momento de celebração em que ele não se encaixe. É um presente acessível, pois tem preço para todos os bolsos; já se foi o tempo que era necessário ter muito dinheiro para presentear com uma orquídea.

RCS: Todas as orquídeas têm a sua beleza peculiar.  Em sua opinião qual é a mais bonita delas? E por quê?

 Acho muito bonitas as espécies brasileiras: Laelia purpurata, Cattleya bicolor, Cattleya walkeriana, Cattleya nobilior e Sophronitis coccinea. Entre essas, tenho preferência pela Sophronitis coccinea, uma micro-orquídea. Apesar de pequena produz flores grandes (oito centímetros), desproporcional ao seu tamanho; tem cor vermelha escarlate forte.

RCS: Há quanto tempo você trabalha com esse tipo de planta?

Há 18 anos como colecionador e oito, como produtor e comerciante.

RCS: Nesses anos todos, de ligação ao cultivo de orquídeas, tem uma história que lhe marcou?

 A procura por plantas bonitas, raras, diferentes ou exóticas é notória entre os apaixonados e amantes de orquídeas, e quando são encontradas o preço nem sempre é o maior obstáculo para a aquisição. Numa exposição de final de ano no Jardim Botânico de Brasília há alguns anos, algo inusitado aconteceu envolvendo uma Laelia púrpurata var.carnea. Pelo menos nessa época em Brasília, essa variedade de orquídea se enquadraria tranquilamente em uma das qualificações acima. Naquela exposição nosso orquidário estava presente e tínhamos na ocasião uma quantidade razoável dessas Laelias, todas na espata e com os botões a ponto de eclodirem, com previsão para abrir a uma semana do Natal (essas plantas têm cores que lembram essa data, com as pétalas brancas e o labelo vermelho claro ou cor de morango, são plantas realmente lindas, sendo esse gênero também conhecido como flor-símbolo do Estado de Santa Catarina).  E nós precisávamos de uma Laelia florida para utilizar como amostra a fim de ajudar a vender as outras. A Hiléia, minha esposa, procurou entre os expositores uma para comprar e encontrou a única que estava florida, que quando foi colocada na prateleira, na hora que ela ia pegar a orquídea, uma cliente pegou primeiro e não soltou mais a planta. A orquídea foi vendida à senhora. A Hiléia conversou com ela e ofereceu duas da mesma, em troca da orquídea permanecer com ela durante a feira, e se comprometeu a devolver em sua residência, imediatamente após o término da exposição. Ela concordou.  A estratégia de expor a Laelia purpurata florida foi um sucesso em termos de vendas e as orquídeas com espata estavam quase acabando. Era o último dia da exposição, o local estava lotado, estava um tumulto de tanta gente comprando orquídeas, quando de repente surgiu um fazendeiro de Goiás, foi assim mesmo como ele se apresentou, cuja mãe tinha gostado da amostra, e quis comprar a orquídea, nós dissemos que aquela orquídea não estava à venda, que pertencia a uma cliente. Mas o fazendeiro queria de qualquer maneira aquela orquídea para a sua mãe e mandou botar preço. Foi lhe sugerido o valor pago inicialmente, multiplicado por dez e, para nosso espanto, ele topou. Ligamos para a dona da orquídea e explicamos a situação. Ela, com certa resistência aceitou a negociação, desde que déssemos a ela além do que havíamos combinado anteriormente, mais duas orquídeas floridas de brinde.

FRANCISCO ALVES NETO

*Substrato – qualquer objeto, ou material, sobre o qual um organismo cresce, ou ao qual está fixado: substância, ou estrato, subjacente a esse organismo. (NR)